A Sentença da Princesa | Conto Especial de Sexta-Feira 13

Hoje é sexta-feira 13! E para comemorar, nada como um conto macabro autoral, não é mesmo? Neste ano, eu resolvi adentrar em um tema que gosto muito: os contos de fadas. Porém, quem disse que todo conto de fadas tem que ter um final feliz?

Imagem meramente ilustrativa para este conto
Existia uma cabana no ponto mais escuro da Floresta . E era lá que uma jovem bruxa vivia. Diferentemente de outras bruxas, ela era bela, e também tinha um bom coração. Ela possuía olhos dourados, lábios vermelhos e cabelos negros, que iam até sua cintura. Era a mulher mais linda que já poderia ter existido. Porém, isso atraía olhares curiosos, e muitos eram de homens. A jovem bruxa não conseguia evitar. Mesmo assim, ninguém ousava aproximar-se dela. Por mais boa que fosse, muitos tinham medo do que ela seria capaz de fazer.

Certa vez, a bela mulher foi obrigada a ir até a vila mais próxima, a procura de ervas medicinais para suas poções. E, como já era de se esperar, atraiu os olhares de todos devido a sua exótica beleza, principalmente, de homens que por ali passavam. Mas diferente de outros dias, ela acabou perdendo a noção do tempo, e logo, a noite começou a se mostrar.

Então, rapidamente, pegou as coisas que precisava, e começou a ir embora. Porém, ela não conseguiu seguir muito adiante, já alguém a puxou por trás. Era um homem, e ele cheirava a bebidas alcoólicas. A moça tentou se desvencilhar, mas logo, mais e mais homens se aproximavam para observar. Ela gritou por ajuda, mas só o que escutou de volta foram os risos dos homens. Não havia ninguém para ajudar.

Ela foi arrastada para um beco escuro, e as sacolas de papel que carregava, foram caindo pelo caminho. A jovem tentava de todas as formas escapar, mas todos os seus esforços eram em vão. O homem começou a rasgar suas vestes, enquanto ela começava a chorar. Não haveria escapatória. A moça sabia o que ia acontecer.

Sabia que não aguentaria, mas também, sabia que não conseguiria impedir. A bruxa tinha magia dentro de si, mas ela não era o bastante para salvá-la, pelo menos, não a magia do bem. Só havia um jeito de salvar-se, e a jovem se recusava a utilizá-lo. 

Porém, quanto mais sua pele ficava exposta, mais assustada a moça ficava. Logo, ela estava completamente nua. E o seu agressor, começava a retirar suas roupas também. A jovem bruxa percebeu que eram roupas de boa qualidade, com adornos dourados e brilhantes que mostravam sua classe. Eles eram da realeza, todos eles.  Ela conseguia ouvir as risadas ao fundo. Aquilo era demais. 

Quando o homem se aproximou mais, colocando suas grandes mãos no corpo da moça, e começando a machucar-lhe, ela sentiu a própria ira crescer dentro de si. Gritou de dor, mas não não por uma dor física, ou uma dor devido ao que estava acontecendo. Era algo que doía, dentro de sua alma.

Ela fechou os olhos, e deixou que isso a consumisse. Era a última coisa que queria que acontecesse, mas agora não havia volta. Era a única forma de se salvar. 

A jovem sentiu quando o peso do homem saiu de cima dela, e ainda de olhos fechados, ela se levantou. Logo após isso, abriu os olhos. Ela não estava mais nua, agora usava um longo vestido negro. Seu agressor jazia caído no chão, com os olhos arrancados, e a garganta dilacerada.

Em momentos normais, ela estaria assustada, mas naquele momento, só conseguia sorrir de prazer ao ver a cena de horror. Depois de admirar o trabalho, a bruxa olhou para os outros homens, que a encaravam sem conseguir se mexer.

A bruxa riu.

- Agora vocês vão saber com quem estavam mexendo, caros rapazes. - ela disse, com uma voz espectral.

Aproximou-se dos homens.

- Eu sei exatamente quem são vocês, e irei fazer questão de ir atrás de cada um. 

- Se vai nos matar, mate agora!  - gritou um dos homens mais próximos.

A bruxa o encarou, sorrindo.

- E quem disse que irei matar vocês? - a jovem riu - Existe outras formas de se vingar, caros meninos da realeza.

Ela se aproximou do homem que havia tido coragem de dirigir-lhe a palavra.

- Mas já que está ansioso, farei questão de que você seja o primeiro - dizendo isso, ela aproximou os lábios no ouvido do homem, e sussurrou - Soube que sua filha está fazendo aniversário.

- Fique longe da minha família!

A bruxa riu, e jogou o homem contra a parede.

- Tarde demais - disse sorrindo.

Logo depois de dizer isso, a jovem andou em direção ao castelo. Ela não iria voltar a sua velha cabana. Ela não era mais a mesma. Agora a magia negra te dominava, e ela a usaria com destreza.

A Rainha ninava sua pequena filha. Ela era um ser tão pequeno, e ao mesmo tempo, de grande beleza. A mãe fizera questão de vestir a criança com a mais bela veste, de cores brancas, que contrasteavam com os brilhantes olhos azuis e seu cabelo castanho. 

Depois de terminar de arrumar-lhe, pediu que as criadas a levassem até o berço, feito especialmente para a pequena. Hoje, ela completaria um ano de idade. O Reino estava em festa. 

O Rei, em sua alegria, havia ido comemorar com seus nobres amigos. E logo estaria de volta para prestigiar a festa da filha. Enquanto esperava, a Rainha desceu, para dar boas-vindas para os convidados.

Ao chegar ao Salão, ela se surpreendeu com a quantidade de pessoas. Nobres, andavam por todos os lados. Ninfas espreitavam aos cantos, duendes saltitavam, enquanto tomavam boas quantidades de cidra. E claro, haviam as fadas, que voavam para lá e para cá, animadas.

A Rainha cumprimentava todos, sempre educada. Porém, por dentro, gostaria apenas de estar trancada no quarto. Odiava aqueles seres primitivos, apenas exercia o seu papel de boa rainha para todos, mesmo sendo uma fachada.

Depois do que pareceram horas, o Rei retornou. A dama de companhia da Rainha a avisou, e ela foi ao encontro do marido, que estava na enfermaria. O homem delirava, e em sua cabeça havia um corte profundo, porém, o sangue já estava seco. Mesmo assim, sua esposa se preocupou.

- O que houve com você, meu bom rei? - ela perguntou, assustada.

O homem pegou as mãos brancas da Rainha, e a olhou com os olhos suplicantes.

- Pegue nossa filha, ela corre perigo.

A mulher queria fazer mais perguntas, mas o instinto de mãe fora mais forte, e foi isso que a fez voltar correndo para o Salão, onde conseguia ver as criadas colocando sua filha no berço para que todos pudessem admirar. 

Ela correu para sua direção, mas um estrondo fez com que ela caísse no chão. Ao olhar em direção a origem do barulho, percebeu que fora a grande porta, que agora estava destruída. Sobre os escombros, era possível ver uma mulher magnífica, que trajada um longo vestido negro. 

Todos os convidados começaram a correr, assustados. Era um pandemônio. Mas, com apenas uma mão levantada, a mulher fez com que todos paralisassem, e caíssem no chão, sem conseguir se mexerem. Logo após isso, ela caminhou em direção ao bebê.

A pegou no colo, e acariciou seus fios de cabelo dourados. Sorriu para a criança, que se mantinha em silêncio. 

- Que linda princesa. Seu nome é Aurora, certo? - ela murmurou para a menina.

- Fique longe dela! - a Rainha gritou.

A mulher a encarou. E sorriu. Logo após isso, a Rainha sentiu seu corpo inteiro queimar de dentro para fora. Sangue começou a descer de seu nariz. Sua visão ficou turva, e ela perdeu os sentidos. Estava morta.

A bruxa sorriu, e voltou a acariciar Aurora.

O Rei, ao ouvir os gritos da esposa, correu para o Salão. Ele desembainhou a espada, mas parou, ao ver o cadáver dela jogado ao chão. 

Ele se ajoelhou, e começou a chorar. A bruxa se aproximou dele, ainda com a princesinha no colo.

- Apesar de tudo, jovem Rei. Eu não mato seres inocentes. Então pouparei sua filha. Porém, ela não será inocente para sempre. Quando completar 16 anos, e não mais for uma criança. Eu retornarei para levá-la. 

O Rei a encarou, com raiva. Tentou atacá-la, mas a bruxa o mantinha preso ao corpo da esposa. 

Logo após isso, colocou a princesa em seu berço. E sem dizer uma palavra a mais, saiu do castelo. Depois disso, seguiu seu caminho até o próximo Reino.

Todos que estavam presos ao seu encanto foram libertados, e o Rei correu para sua filha. A pegou no colo, e chorou. Três fadas, vendo o sofrimento do pai, se aproximaram dele. 

- Majestade, se nos permitir, podemos proteger a princesa.

O Rei olhou para as três, e depois olhou para Aurora. Sua esposa estava morta, e ele não deixaria a filha a cuidados de simples criadas. Porém, com as fadas, a pequena princesa teria proteção mágica. Então, sem pensar em mais, entregou a criança nas mãos delas. E logo depois, andou desolado até seus aposentos, terminando assim, a festa de aniversário.

As fadas levaram a princesa para uma cabana na parte florida da Floresta. E lá, ela cresceu, se tornando uma jovem bela e inteligente, que adorava a natureza e os animais que ali viviam ao seu lado.

Quando a princesa completou 16 anos, a bruxa retornou. Ela estava mais velha do que a última vez que estivera naquele Reino, mas sua beleza ainda era magnifica. Suas vestes eram negras, porém, com detalhes prateados, que mostravam que ela agora pertencia a realeza. A mulher caminhava por entre os campos floridos, que murchavam ao seu toque.

Ela se aproximou da cabana. E abriu a porta, adentrando. Aurora estava sentada uma cadeira, bordando um fino lenço. A bruxa sorriu.

- Olá, pequena Aurora. - ela disse.

A princesa a encarou, e sorriu. Porém, esse sorriso sumiu tão rápido quanto apareceu.

- Quem é você? - ela perguntou.

A bruxa sorriu.

- Sou sua mãe, e vim para te buscar.

A jovem levantou-se.

- Minha mãe está morta, minhas tias disseram isso.

A bela bruxa sorriu.

- Elas mentiram para você. Acalme-se Aurora, eu sei que lembrará de mim. 

A princesa fechou os olhos, puxando as memórias mais profundas. E conseguiu lembrar, uma vaga, daquela mulher que dizia ser sua mãe, a segurando no colo. Enquanto ela mantinha os olhos fechados, a bruxa fazia um pequeno encantamento, para ajudar a menina a confiar nela.

Ela abriu os olhos, e viu que a mulher estendia a mão para ela. A jovem a pegou, e foi levada pela bruxa, até seja lá qual caminho ela havia escolhido seguir.

As fadas, não tentaram impedir. Estas, já não poderiam fazer mais nada. A bruxa cuidara delas. Todas estavam mortas. 


A Sentença da Princesa | Conto Especial de Sexta-Feira 13 A Sentença da Princesa | Conto Especial de Sexta-Feira 13 Reviewed by Ana Catarine Mendes on sexta-feira, outubro 13, 2017 Rating: 5

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